No percurso dos Neveiros


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Para uma romagem ao Santo António da Neve é possível escolhermos entre o percurso pedestre já delimitado ou seguir de automóvel pela sinuosa estrada do Coentral.

Por ser mais apetecível, optamos por caminhar por um trilho que combina floresta de espécies exóticas com as matas das cumeadas.

Com início na Casa de Guarda Florestal de Porto Espinho (970 metros de altitude), nas proximidade do Coentral, tem uma extensão de aproximadamente 20 Km (percurso de ida-e-volta) e por tal uma duração média de oito horas.

Trata-se de um passeio pleno de encantos uma vez que, e tomando o caminho à direita da Casa de Guarda, depois de uma ligeira subida é possível observar o Vale da Ribeira de Pera, destacando-se a Aldeia do Coentral e o vale escarpado da Ribeira de Quelhas.

Na Primavera, época em que este trilho assume a sua plenitude, é um espectáculo deslumbrante a profusão multicolor dos matos, entre estes o tojo, a urze, a giesta e a carqueija, num contraste ímpar com o tom verde-escuro dos pinheiros-negros.

Continuando a caminhada podemos contemplar o Vale da Ribeira de São João, vislumbrando por aqui e por ali os contornos de algumas aldeias serranas, enquanto nos aproximamos da Ribeira de Cavalete, zona com vegetação luxuriante que constitui um pequeno paraíso para a fauna local.

Com um pouco de sorte é possível ficarmos frente-a-frente com um veado altivo.

Neste ponto, o planalto do Santo António da Neve já se encontra próximo...

Chegados estamos ao nosso destino e a 1157 metros de altitude podemos observar a paisagem e alcançar a vastidão escarpada da Cordilheira Central.

Local de romaria e festa dos povos serranos, a capela e os poços de neve fazem-nos sonhar com tempos remotos em que o povo arduamente recolhia e armazenava a neve, transformando-a no gelo que na época estival seguia em ronceiros carros de bois até ao Rio Zêzere e daí em barcos até às adegas e copas régias em Lisboa.

Na placa colocada na Capela, pode-se ler:

"ESTA CAPELA DO GLORIOSO SANTO ANTONIO DE LISBOA
A MANDOU FAZER JULIÃO PEREIRA DE CASTRO REPOSTEIRO
DO NOSSO REINO DA CÂMARA DE SUA MAJESTADE E NEVEIRO
DE SUA REAL CASA EM TERRA SUA ANO 1786"

Neste planalto sentimo-nos envoltos pela natureza e em plena sintonia com esta.

O chão, atapetado por uma erva rasteira e de quando em vez por morangueiros silvestres e um ou outro pilriteiro, convidam a um repouso e lanche merecidos sob os frondosos carvalhos-alvarinho, pseudotsugas, larícios, azevinhos e outras espécies, tornando este espaço um dos mais aprazíveis de toda a Serra da Lousã.

A urze-arbusto rasteiro cuja coloração consoante a época do ano raia desde o rosa suave e o roxo intenso- é uma constante na paisagem e as abelhas, em constante labuta, rondam-nas em busca do pólen precioso que se transformará no escuro Mel da Serra da Lousã [*].

De regresso, passamos pelo ponto mais alto da Serra, o Castelo, Alto ou Altar do Trevim a 1.204 metros de altitude.

Neste local, a vista espraia-se pelas Beiras... em dias aprazíveis avista-se a Poente, a Serra do Buçaco e a Serra da Boa Viagem até ao Oceano; do lado Sul, a Serra do Espinhal e o Maciço de Porto de Mós; a Nascente, a Serra da Gardunha e, a Norte, os Penedos de Fajão, as Serras do Caramulo e da Gralheira e os Cântaros da Estrela.


[*] - Produto D.O.P.- Denominação de Origem Protegida. Zona de abrangência - todos os concelhos das Terras de Entre LOusã e Zêzere.

Fonte: Entre A Serra e o Rio… Os trilhos ELOZ, edição Dueceira- Leader II ELOZ
Fonte: Imagens AS/Dueceira; Gravuras: João Viola; Imagem em detalhe da Urze: Dueceira/Ecce Design; Imagem retirada do Site Pampilhosa da Serra em Imagens Em
www.pampilhosaemimagens.com/
Para Consulta: Guia da Rede de Percursos da Serra da Lousã da QUERCUS


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Júlião Pereira de Castro, neveiro real, e sua mulher Policarma receberam ontem, ao final da tarde, um carregamento de gelo no botequim Casa da Neve, em Lisboa, proveniente da Serra da Lousã. Esta bem poderia ser uma notícia dada a 8 de Janeiro de 1782, pois na véspera tinha sido inaugurado o actual Martinho da Arcada, fundado por este neveiro.

O que se passou ontem, de facto, foi uma recriação do transporte de neve desde o Poço do Alto de Santo António da Neve, no Coentral, concelho de Castanheira de Pera, no alto da Serra da Lousã, até Lisboa, realizada pela Lousitânea - Liga de Amigos da Serra da Lousã. O evento coincidiu com a festa que anualmente se realiza no local onde em tempos existiram sete poços de neve e está edificada uma capela em homenagem a Santo António, mandada construir pelo neveiro.

Pela manhã já uma junta de bois estava parada ao lado de um dos três poços, recentemente reconstruídos, para transportar os blocos de gelo retirados por neveiros de dentro do poço onde tinham sido colocados em sacos de serapilheira e depois envoltos em fetos, palha e colocados dentro de caixas de madeira.

Dezenas de pessoas assistiram no local ao início da viagem das carroças pelas calçadas centenárias do Coentral, recriada com a ajuda do Rancho da União Recreativa Sapateirense e da junta de bois, o amarelo e a cabana. A festa de homenagem a Santo António continuou e a viagem também, mas por outros meios, pois havia que fazer 127 quilómetros até chegar a Constância.

Nesta vila banhada pelo Tejo foi, então, recriado, com a colaboração do Grupo de Teatro PUGNA, o momento em que era feita a transferência das caixas que transportavam o gelo para um barco tradicional, do século XVIII, que fazia chegar à capital o tão desejado produto cobiçado pela corte e pela alta sociedade lisboeta.

Por fim, já em Lisboa, na Praça do Comércio, os figurantes, elementos da própria Lousitânea e do Rancho Folclórico Neveiros do Coentral, deram vida ao momento em que o gelo era entregue à Casa da Neve, que há época detinha o estatuto de fornecedor da casa real e, em caso de o gelo ser abundante, estava autorizada a vende-lo para cafés e hotéis da cidade a oitenta reis o quilo.

"Existem poucos estudos sobre o assunto", refere José Pais, um dos responsáveis pela iniciativa, reconhecendo não ser ainda possível afirmar com certeza quanto tempo levavam os neveiros a fazer o percurso. Há quem fale em pelo menos três dias. Ao que se sabe, o negócio era rentável, pois em média chegava a Lisboa entre um terço a metade da carga inicial. A riqueza do neveiro era tal que quando foi distribuída pelos filhos as moedas tiveram de ser colocadas em alqueires.


Fonte:Jornal de Notícias, Reportagem de Licínia Girão, 18 de Junho de 2007